Astir*Carr
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À Beira do Que É Vida
À Beira do Que É Vida

Tríptico da Contempladora
AstirCarr

Dedicatória

Para os que ainda se demoram -
que ouvem o que não grita,
veem o que não se mostra,
e sentem o que não se diz.

Aos contempladores anônimos que, como eu, recolhem nuvens, silêncios e almas por onde passam.
Este relicário é teu espelho sereno.


I. Dos Céus e das Coisas Lentas

No céu repousa o véu das nuvens lentas,
bordado em tons que o olhar não mais procura;
quem vê não vê - tão cega está, tão dura
a alma que às pressões do tempo enfrenta.

Mas há quem veja o sopro que sustenta
a dança muda em bruma clara e pura,
e ouça o riso oculto na espessura
da tarde onde o silêncio se apresenta.

Contemplo o mundo - espelho que ressoa
o brilho breve em cada face errante,
a flor que cai sem ter por quem ser vista.

Sou cais de olhar, onde a presença ecoa;
enquanto o mundo corre, indiferente,
acolho a luz no gesto que persista.



II. Dos Rostos e Caminhos

Cruzo por vultos - vozes sem demora,
rostos que o tempo apaga sem aviso;
ninguém se vê, ninguém enxerga o riso
que em lábios nus, por descuido, aflora.

Mas sigo atenta, e vejo o que não chora:
a dor no gesto, o mundo no improviso,
o brilho vão no olhar de um indeciso,
a solidão que em muitos se decora.

Contemplo o outro - espelho que disfarça
o grito mudo em véus de cortesia,
a alma exausta em corpo que não cansa.

E nesse instante breve em que se enlaça
meu olho ao seu, vislumbro a poesia
do ser que passa e nunca mais alcança.



III. Do Invisível e do Sagrado

Contemplo em paz - o mundo em agonia,
em cada ser, um templo disfarçado;
há luz nos olhos, mesmo fatigado,
e a voz calada entoa melodia.

Nos gestos vãos, nos corpos sem vigia,
revela-se o divino envergonhado,
que habita o vão do tempo acelerado
e acende a fé sem nome ou liturgia.

Olhar é prece - e ver é ser tocada
por algo além da forma ou da razão:
a chama oculta em carne mal vivida.

Por isso ando, em alma ajoelhada,
colhendo o céu em cada multidão -
contempladora à beira do que é vida.



Colofão
Escrito em silêncio, por AstirCarr - onde a poesia não pede pressa, só presença.
Astir
Enviado por Astir em 03/06/2025
Alterado em 30/10/2025
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