Astir*Carr
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Textos

A Menina Que Sabia Os Versos De Cor

Havia uma menina em mim
que decorava versos de amor
como quem guardava flores
entre as páginas de um livro.

Ela não sabia ainda
que o tempo também escrevia,
que cada instante vivido
já começava a ser lembrança,
e que alguns amores chegam
apenas para ensinar
ao coração a permanência.

Aquela menina acreditava
que esperar era uma promessa,
que toda ausência tinha volta,
que bastava amar bastante
para que ninguém partisse.

Não sabia.

Não sabia dos caminhos,
das despedidas sem aviso,
das palavras que não chegam,
dos abraços adiados,
nem de quantas vezes a vida
pronunciaria tarde demais
aquilo que o coração
esperara ouvir tão cedo.

Mas sabia versos.

E talvez por isso tenha atravessado
tantos janeiros sem perder
a delicadeza de acreditar
que uma palavra pode ficar
quando tudo o mais se vai.

Hoje procuro aquela menina
e ainda a encontro em mim.

Está sentada em algum lugar
da minha adolescência,
repetindo baixinho poemas
que nunca mais esqueceu.

Eu me aproximo devagar.
Não quero assustá-la
com tudo o que já sei.

Apenas me sento ao seu lado
e escuto.

Ela fala de amor.
Eu conheço a saudade.

Ela fala do amanhã.
Eu conheço o tempo.

Ela acredita que a vida começa.
Eu sei quantas vezes
a vida pode recomeçar.

E quando termina seus versos,
olha para mim
como se perguntasse:

— Valeu a pena?

Eu sorrio.

Ah, menina…

Valeu cada amor,
cada espera,
cada encontro,
cada ausência,
cada flor que nasceu
onde pensei que nada mais floresceria.

Porque você guardou versos
sem saber que, um dia,
eles seriam sementes.

E eu, que hoje volto para encontrá-la,
descubro finalmente:

há versos que aprendemos de cor
e esquecemos com o tempo.

Outros permanecem.

Crescem conosco,
envelhecem conosco
e, quando a vida já nos ensinou
o significado de suas palavras,
florescem outra vez.

Talvez seja por isso
que ainda escrevo.

Para que, quando eu também
for apenas lembrança,
alguma palavra minha permaneça
no coração de alguém.

E quem sabe, um dia,
alguém a encontre pelo caminho
como se encontra uma flor
que ninguém sabe quem deixou…

e a leve consigo.

Então saberei
que a menina não decorou versos em vão.

Ela estava, sem saber,
aprendendo a eternidade.

Astir
Enviado por Astir em 21/08/2026
Alterado em 21/08/2026
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